MÍDIA
DIGITAL
Carlos Pernisa Jr.*
O que é? A mídia
digital como algo plural. A interconexão de
meios. A estrutura em rede como modelo para a mídia
digital. A busca de novas formas de moldar as construções
digitais, em geral, e a estrutura reticulada, em particular.
Mídia – Digitalização
– Pluralidade – Rede
O que é mídia
digital? A pergunta inicia a busca por algo que ainda
se apresenta como um objetivo a ser alcançado,
ou seja, por alguma coisa que não existe de
maneira organizada e estruturada, ao menos neste exato
momento. Mídia digital poderia comportar, a
princípio, todo e qualquer meio que se utilize
da informática, transformando informações
para a linguagem binária de zeros e uns, princípio
da digitalização. O termo mídia,
porém, refere-se, na maioria das vezes, ao
universo da comunicação, indicando a
pluralidade de meios aí presentes. Assim sendo,
a mídia digital seria o espaço que comporta
os meios de comunicação que se utilizam
da linguagem binária da informática.
Esta definição comporta também
uma atenção especial ao termo mídia.
Este vem sendo utilizado no plural, apesar de já
ser a indicação de uma multiplicidade,
ou seja, mídia é um conjunto de meios,
vindos do latim media e medium. A pluralização
de um coletivo, neste caso, parece ser estranha. Quais
os meios de comunicação que não
fariam parte da mídia para serem inseridos
apenas quando do uso do termo mídias? A questão
parece não ter um sentido mais claro e, por
isso, soa como algo estranho e que não merece
um comentário ainda mais extenso. É
bastante claro que o termo mídia pode contemplar
todos os meios de que trata hoje o universo da comunicação.
Indo um pouco mais além, o termo mídia
indica uma pluralidade interna, uma multiplicidade
que lhe é peculiar. Neste sentido, a mídia
digital é algo já intrinsecamente plural.
Isso leva a pensar nos casos mais específicos
de meios que são tratados hoje como espaços
novos da comunicação, como a rede mundial
de computadores – Internet – e todas as
suas ramificações – intranets
e extranets –, os CD-ROMs e os DVD-ROMs, mais
recentes. Todos estes meios utilizam-se da pluralidade
como suporte: o som, a imagem e o texto. Esta utilização
de som, imagem e texto já foi chamada de multimídia,
mas há autores, com Pierre Lévy, que
contestam seu uso. Para ele, o correto seria pensar
em unimídia, já que apenas um espaço
está sendo utilizado, reunindo os meios visuais,
sonoros e textuais.
Há quem prefira
hipermídia. O que, no entanto, seria exatamente
um conjunto de meios baseados em uma estrutura hipertextual?
Não parece haver muito sentido na utilização
do termo, pelo menos em português. Mídia
digital parece atender melhor a tudo isso que foi
colocado anteriormente, deixando espaço para
a multimídia quando do uso de meios diferentes
em espaços também diversos. Isso, contudo,
não impede que os termos unimídia e
hipermídia sejam usados nas suas mais variadas
formas. Aqui, apenas, acredita-se que mídia
digital seja um termo mais razoável para entender
o que está sendo pensado no momento.
Mídia digital
é igual a multimídia, a hipermídia
e a unimídia? Pode-se dizer que não
exatamente, apesar de, em muitos momentos, aparecerem
todas como sinônimos. Midia digital é
um termo que busca a pluralidade, a idéia do
múltiplo, todo o tempo. O plural não
está, é bom que se ressalte, apenas
no termo, mas aparece também na concepção
de um espaço dentro do universo da mídia,
em que texto, som e imagem podem aparecer juntos a
qualquer momento. Isso é importante para entender
a proposta do que aqui está sendo exposto.
Uma mídia plural indica uma linguagem plural,
o que seria o mesmo que dizer várias linguagens.
Como a mídia digital vai trabalhar com esta
multiplicidade, busca-se entendê-la como geradora
de linguagens, já que um meio acaba criando
sua própria linguagem, como se pode ver no
cinema, por exemplo. A linguagem cinematográfica
é hoje reconhecida em sua autonomia em relação
a outros tipos de linguagem. No caso da mídia
digital, no entanto, o termo no plural – linguagens
– parece ser mais adequado, ainda que não
haja, efetivamente, a existência de algo estruturado
como linguagem.
Como existe a possibilidade
de usar texto, imagem e som, de maneiras diferentes,
a idéia da interconexão de meios é
uma outra questão a ser levada em conta pelo
que é chamado aqui de mídia digital.
Não dá para pensar esta mídia
digital como algo totalmente novo, que não
tem nada a ver com o que já foi feito, anteriormente,
na área da comunicação. Assim,
todos os meios já utilizados hoje pela chamada
imprensa vão influenciar esta área da
mídia digital. A questão é colocar
esta influência num patamar que abra espaço
para o novo, onde copiar apenas o que já existe
não seja o que se espera do que está
se formando agora. Este problema coloca-se claramente
quando se nota a dificuldade de sítios da Internet
em sair dos esquemas do jornal e revista impressos,
do rádio e da televisão já conhecidos.
A necessidade de um modelo parece travar a criatividade
de muitos que cuidam da construção dos
sítios na Internet. Por vezes, a palavra escrita
toma um certo poder que parece deixar um pouco de
lado a imagem e o som. Lógico que ainda é
mais fácil fazer circular o texto na Internet
do que a imagem – principalmente aquela em movimento
– e o som, em virtude de problemas técnicos
com o uso de linhas telefônicas que não
estão preparadas para a transmissão
de dados e sim de voz. Com a popularização
de outras formas de transmissão – cabo,
antena, fibra ótica, entre outros –,
esta barreira vai ser vencida, mas talvez seja um
pouco tarde para começar a pensar em transmissão
de imagens e sons. A urgência desta iniciativa
faz com que se volte a discutir a questão da
interconexão de meios já a partir de
agora.
A possibilidade de ir além do texto escrito
com imagens fixas promete fazer com que a própria
idéia de comunicação seja repensada.
Sons e imagens já mostraram sua força
com cinema, televisão e vídeo, mas ainda
não estão podendo ser utilizados no
espaço da mídia digital em todo o seu
potencial. Isso faz com que se pense no que será
feito com a união do texto escrito com as imagens
fixas e em movimento e também com os sons.
Pierre Lévy não acredita que isto vá
modificar muito a vida na rede digital, mas é
preciso salientar que novas linguagens devem aparecer
e que um novo meio vai estar surgindo daí.
Talvez Lévy esteja mais preocupado com a organização
social e por isso dê mais ênfase à
estrutura da rede, não observando outras questões
que se colocam ao lado dela2. A estrutura é
importante, mas um novo meio de comunicação
baseado nela e numa união de sons, imagens
e textos também deve ser salientado. Além
disso, não é só a rede que deve
estar presente na comunicação dos próximos
anos, já que outros suportes vão aparecer.
Os primeiros são conhecidos – o CD-ROM
e o DVD-ROM. Tanto a rede como CD-ROM e DVD-ROM devem
ser usados para transmitir informações,
difundindo o conhecimento em grandes quantidades ou
com muita rapidez.
Uma pergunta aparece
neste ponto. Qual a vantagem de se ter rapidez ou
grande quantidade de informações à
disposição das pessoas seja na rede
ou no suporte? As respostas podem ser diversas, cada
qual atentando para um aspecto da questão.
O problema que surge como pano de fundo, porém,
parece ter uma importância também inegável.
O que fazer com tanta rapidez e quantidade de informação?
A estrutura da rede e a possibilidade de suportes
que contenham uma tal quantidade de dados em um espaço
mínimo são aspectos muito interessantes
e que causam grande repercussão, no entanto,
não funcionam como uma justificativa em si
para sua existência. Tentando dar mais praticidade
ao que está sendo aqui colocado, de que vale
ter uma certa quantidade de dados à disposição
de uma pessoa que, simplesmente, não tem como
utilizá-la com uma certa clareza de propósito.
Do mesmo modo, uma comunicação instantânea
com o Japão ou a China pode ser interessante
para quem nunca teve referência nenhuma sobre
estes dois países? Visto de outro modo, de
que vale uma viagem se a pessoa não enxerga
além do próprio – e restrito –
horizonte? Eis uma questão que não vem
merecendo muita atenção daqueles que
se preocupam em fazer sistemas de rede e de armazenagem
cada vez mais sofisticados e amplos, mas que enxergam
isso como uma visão de facilitação
da vida das pessoas e não pensam na utilização
de tudo isso. Lógico que existem exceções,
mas parece que elas não têm obtido um
grande sucesso em suas tentativas de entender melhor
este processo, já que cada vez mais se busca
– na indústria e nas pesquisas da área
– uma estrutura de rede mundial mais veloz ou
um suporte que dê conta de uma quantidade enorme
de dados. Não haveria nada errado com a velocidade
ou com o volume de dados armazenados se a questão
da sua utilização não estivesse
sem uma resposta clara. Uma estrutura que busca a
interatividade como uma de suas bases deveria estar
mais atenta a isso. Nada mais desagradável
do que as pesquisas de opinião desde a criação
do programa Você decide, da Rede Globo de Televisão.
Neste, inicialmente, ficava clara a existência
de dois finais possíveis para uma trama –
a segunda possibilidade aparecia no final do Fantástico,
outro programa da mesma rede. Depois de um tempo,
porém, esta segunda possibilidade ficou apenas
como uma hipótese, já que não
havia meios de se comprovar sua existência,
pois o outro final parou de ser exibido. Ainda mais
além, uma terceira possibilidade de escolha
foi levantada, implicando em novas configurações
do programa, mas não mostrando nenhuma outra
alternativa, senão aquela que teria sido escolhida
pela audiência que ligou para decidir por uma
das situações propostas. O que isso
quer dizer? Pode-se dizer, imediatamente, que não
há a comprovação de uma escolha
explicitada por dois caminhos claros a serem decididos,
ou seja, o telespectador não fazia uma escolha
sabendo o que poderia acontecer a cada alternativa
mostrada. Isso não parece ser problema, mas
fica, por trás, a idéia de que a existência
do outro final – ou dos outros finais –
seja apenas uma mera encenação, de que
não haja sequer sua produção
e que o voto do telespectador não tenha nenhuma
validade, já que tudo poderia ser facilmente
manipulado pela emissora. Esta é apenas uma
hipótese e não acredito que isso possa
ter acontecido de verdade, mas vale o alerta para
o que se viu depois. Vários sítios da
Internet promovem hoje votações sobre
os mais variados assuntos como pesquisas interativas.
O que são e para que servem estas pesquisas?
São perguntas que não são respondidas
por quem as faz. De que vale ter uma certa votação
sobre um assunto – semelhante ao que ocorre
em pesquisas de intenção de voto para
uma disputa eleitoral – se não há
nada além de uma indicação de
que tal resposta foi mais votada do que outra? Indo
mais além, quem garante que nestes sítios
não há algum tipo de fraude nos resultados
obtidos e, mais além ainda, de que servem tais
dados numéricos? Perguntas talvez sem respostas,
porque respostas para elas não são possíveis
de uma maneira totalmente clara e honesta. Fica a
idéia de uma falta de perspectiva neste tipo
de enquete que se presta apenas a verificar dados,
muitas vezes percentuais, sem que seja feita qualquer
relação entre eles com o que está
acontecendo no mundo – ou seja, não há
nenhuma contextualização.
O modelo de grande
velocidade e armazenamento de dados sem uma destinação
é o que parece dominar hoje todas as áreas
da mídia digital. Isso dificulta a participação
do usuário e leva a considerações
graves sobre o que é feito no setor. Normalmente,
as possibilidades multimídia e hipermídia
– se for feita esta diferenciação
– são pouco exploradas, e também
não há um destaque de determinados pontos
mais interessantes, favorecendo na maioria das vezes
a massa uniforme de informações. A falta
de uma postura mais crítica em relação
ao que deve ser colocado em sítios da Internet
e nos suportes digitais faz com que o usuário,
cada vez mais, não consiga navegar facilmente
na rede ou num CD-ROM ou DVD-ROM. O problema é
agravado ainda mais se for pensado como uma questão
que afeta também o espaço do conhecimento.
O usuário nem sempre sabe como navegar, e isso
parece não ser tão respeitado por aqueles
que fazem a parte de programação.
Este problema do conhecimento
deve ser tomado em conta, se o caso for o do indivíduo
ainda não alfabetizado que recebe toda uma
carga de informação de uma maneira não
muito clara e que pode simplesmente ficar sempre num
estado de um quase entendimento dos fatos, sem contudo
poder ter um controle mais efetivo daquilo que lhe
é destinado. Há ainda a comparação
inevitável com os restaurantes e lanchonetes
de comida rápida – fast food –,
espalhados pelo mundo, que não atendem a nada
mais do que a necessidade de uma alimentação
em poucos minutos. O sabor – de onde vem o saber
– não é levado em conta3. Do mesmo
modo a velocidade da Internet, como uma espécie
de local de serviço rápido ao consumidor.
Lógico que isso é importante, mas não
deve ser a única atribuição da
mídia digital. A Internet vai ser uma rede
de serviços rápidos, sem dúvida,
mas não deve ser pensada somente como isso.
Se for assim, de nada vai adiantar tanto esforço
despendido para que o mundo possa estar integrado,
já que o resultado desta experiência,
num nível tão baixo de comprometimento
com o conhecimento, só vai levar a um empobrecimento
do meio. Daí a importância das linguagens
e da interconexão dos meios.
Para explorar mais este
assunto, deve-se pensar as redes e os suportes digitais
como espaços que se interpenetram, fazendo
pontes entre si e podendo levar a lugares mais distantes
do que os pensados inicialmente. Este é, talvez,
o verdadeiro potencial, pouco explorado é verdade,
da mídia digital. Esta interconexão
vai abrir espaço em vários meios para
que eles troquem mensagens, troquem informações,
mais do que levar diretamente um usuário a
um ponto específico da rede ou do suporte.
Este ponto específico até vai existir
– e é importante que ele exista –,
mas não deve ser o único propósito
de tudo o que está sendo pensado para a mídia
digital. Uma boa estrutura de navegação
pode levar o usuário a um ponto, mas também
pode dar outras alternativas interessantes para que
ele possa fazer novas incursões no território,
explorando áreas desconhecidas e, talvez, percebendo
coisas diferentes e tendo acesso a novos conhecimentos.
Este deveria ser o espírito da mídia
digital.
Infelizmente, hoje, por problemas técnicos
– como a dificuldade de conexões mais
rápidas e estáveis em alguns países
– ou por simples determinação
de certos setores mais preocupados com a rapidez da
resposta rápida e, se possível, em tempo
real, o funcionamento tende a ser outro, buscando
um usuário que tenha um problema específico
que deve ser resolvido o mais rápido possível
– o tal cliente do restaurante de comida rápida
que precisa de um prato em um mínimo de tempo
–, dane-se o sabor – note-se aí
que o saber é o sabor e o tempo é o
tempero. Sem tempo nem espaço para pensar,
como fica o usuário que pretende algo mais
que o serviço rápido da Internet? Este
talvez seja o mais relegado dos personagens da mídia
hoje em dia.
A saída para este usuário que quer algo
com mais sabor e tempero, com tempo e espaço
para um contato mais aprofundado com um assunto, qualquer
que seja ele, parece ser um novo modelo de rede. Por
incrível que pareça, este modelo dito
novo é bastante antigo, mas nunca colocado
em plano de destaque – daí sua novidade.
Quando a Internet foi criada, a troca de mensagens
era o seu principal atributo, o que fazia com que
funcionasse como uma rede em que as informações
transitavam em mão-dupla, ao contrário
da comunicação de massa, sempre em mão-única.
A via de mão-dupla é hoje, possivelmente,
a esperança daqueles que pretendem algo mais
da Internet e das redes em geral. O funcionamento
em rede, isto é, sem que haja um centro que
determine como e quais mensagens devam circular no
seu interior, parece ser a melhor escolha para este
tipo de usuário. Usando um espaço para
trocar idéias e respeitando a possibilidade
de idas e vindas da comunicação, ele
pode entrar em contato com experiências renovadoras
e fugir daquela imposição dos sítios
interessados somente em serviços cada vez mais
rápidos. A estrutura em rede deveria, no entanto,
ser o principal modelo a ser seguido por todas as
redes, já que sua existência é
baseada exatamente neste modelo. Estranhamente, porém,
a idéia da rede parece fazer pouco sentido
em determinadas áreas, principalmente da Web,
hoje, como é o caso dos portais. Ali, o objetivo
principal é conseguir novos clientes a todo
custo e tentar mantê-los o máximo de
tempo possível em seu interior, reduzindo a
estrutura hipertextual a espaços dentro do
próprio sítio, não permitindo
uma possível “fuga” do usuário.
Este modelo também leva em conta a rede, só
que uma rede que aprisiona e não uma que permita
a expansão dos horizontes do usuário.
Deste modo, há um esvaziamento da idéia
de navegação e de acesso a novos conteúdos.
Tudo o que o usuário quiser tem que estar dentro
da estrutura do portal, mas como um portal só
não é toda a Internet e nem toda a Web,
tem-se uma situação que vai contra a
própria função inicial da rede
de troca de informações e mensagens,
já que o mais importante volta a ser a dimensão
da comunicação de massa, onde um emissor
atinge o máximo de receptores possíveis.
Estes receptores, muitas vezes, nem podem ser correspondentes
do portal, pois não têm acesso senão
àquele tipo de pesquisa de opinião já
comentado anteriormente, onde a posição
de cada um não tem muita importância
e nem se sabe o que se quer com aquele tipo de enquete.
Voltando à estrutura da rede, é possível
pensar em sítios na Internet e também
em ambientes criados em CD-ROMs e DVD-ROMs que permitam
uma navegação menos manipulada e onde
o usuário tenha como utilizar os hiperlinks
de maneira interessante para ele, fazendo sua própria
linha de navegação, de acordo com interesses
próprios. Isso pode ser conseguido com os mecanismos
de busca, mas não só eles. A estrutura
da rede deve ser pensada como a base de todo o processo
de programação do sítio, do CD-ROM
ou do DVD-ROM. As ligações devem estar
disponíveis em boa quantidade, abrindo caminho
para reflexões antes até impensadas,
fazendo com que o usuário explore potencialidades
e que possa interagir de fato com o que lhe é
apresentado. Não só como aquele que
responde a determinados estímulos, mas que
tem oportunidade de perguntar. Isso parece ser uma
das dificuldades da Web hoje. Há sempre quem
queira saber a opinião do usuário, sua
resposta a uma pergunta qualquer, mas muito poucos
tentam olhar para o outro lado, ou seja, para as perguntas
que este mesmo usuário possa estar fazendo
ao navegar por aquele sítio. É lógico
que não se pode pensar em um usuário
que pergunte o tempo todo, mas também é
claro que as pessoas têm dúvidas. O problema
é que não há espaço quase
nenhum para elas. Nos CDROMs e DVD-ROMs estas dúvidas,
muitas vezes, aparecem na própria estrutura
de navegação, por vezes complexas ou
confusas demais, que não possibilitam o usuário
uma saída clara para novos espaços dentro
do ambiente criado pelo programa. Por outro lado,
há quem subestime a capacidade do usuário
e lhe dê um caminho quase que único para
navegar. Este tipo de visita guiada a um sítio
ou a um programa não prende o interesse do
usuário e, ao contrário, faz com que
ele abandone rapidamente aquele local. É preciso,
então, atentar para a rede e suas funções
na hora de programar a mídia digital. O programador
deveria ser muito mais um profissional da comunicação
do que um desenhista da Web ou um técnico da
informática, pois, assim, entenderia que a
barreira a ser vencida é de ordem da comunicação.
Ao mesmo tempo, é preciso entender que um sítio
muito visitado pode não ser um grande atrativo
para o mercado publicitário e nem que o número
de horas passadas pelo usuário dentro de um
grande portal garante uma maior exposição
de sua marca ou produto a este usuário. Estes
dados ainda não estão devidamente confirmados
e não devem ser o caminho para uma boa criação
dentro da mídia digital. Um trabalho bem feito,
com boa estrutura de navegação, com
links para outros locais interessantes da Web ou mesmo
com assuntos correlatos bem dispostos e sinalizados
– no caso dos CD-ROMs e DVD-ROMs – parece
ser mais relevante do que qualquer estrutura de portal
hoje existente. Não se pode querer toda a Internet
em um único portal, pois o Universo não
cabe dentro de uma única passagem. Ter medo
dos links também não parece ser uma
boa solução para que o usuário
se mantenha num determinado local. Quem sabe se não
é naquele lugar que o leva para novos pontos
de contato que ele sempre vai voltar para suas novas
viagens no ciberespaço? Pode ser uma saída
mais interessante do que esconder os caminhos a serem
percorridos. Enfim, o percurso aqui traçado
indica que a mídia digital ainda está
por ser criada como tal, já que o que se tem
ainda é muito pouco em relação
ao que pode existir. Há ainda que se pensar
na questão da multimídia, já
citada, em que a Internet não seria o único
meio de comunicação, mas um meio que
tem contato com todos os outros, abrindo espaços
para que a televisão, o rádio, o cinema,
o jornal e a revista impressos e outros meios de comunicação
também possam continuar exercendo seu papel
na sociedade. Esta proposta também é
aquela prevista pela rede, já que seria a da
rede de mídia, dando abertura a várias
manifestações e acolhendo também
o que possa vir delas, numa estrutura de trocas, como
aquelas dos primeiros e-mails dos cientistas que começaram
a dar corpo ao que hoje é a Internet e a toda
a mídia digital, por conseqüência.
Fonte: Lumina - Juiz de Fora
- Facom/UFJF - v.4, n.2, p. 175-186, jul./dez. 2001
v. 5, n. 1, jan./jun. 2002
ISSN 1516-0785 – www.facom.ufjf.br
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